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Cidade Pedra Branca: 10 anos de cocriação

Adoção de inovador método colaborativo para desenvolvimento do Plano Diretor do empreendimento resultou em soluções criativas e projetos eficientes 

“Criem um bairro ideal”. Esse foi o desafio proposto pelos empreendedores da Cidade Pedra Branca a um seleto grupo de arquitetos e urbanistas há dez anos. O mote era a criação do novo centro de bairro do empreendimento, localizado em Palhoça (SC), sob os preceitos do chamado Novo Urbanismo. Profissionais de referência na região, contratados para essa missão, sentaram-se lado a lado para desenvolverem o projeto em conjunto, pela primeira vez. “Os resultados foram tão interessantes que essa metodologia passou a fazer parte da cultura da Pedra Branca”, afirma Dilnei Bittencourt, diretor de engenharia da Pedra Branca. 


A metodologia adotada foi a Charrette, idealizada por urbanistas norte-americanos nos anos 1980 para o planejamento de projetos e que seria adotada de forma inédita no Brasil. A prática consiste em reunir o maior número de envolvidos no desenvolvimento do projeto para debater, planejar e cocriar, de forma imersiva e eficiente. Considerando a grande escala do empreendimento Pedra Branca, os empreendedores entenderam que formar um grande time era fundamental. E decidiram contratar alguns dos mais destacados escritórios de arquitetura de Santa Catarina para atuarem de forma integrada: RC Arquitetos, Studio Domo, Mantovani e Rita, Marchetti Bonetti, Teixeira Netto, Desenho Alternativo e MOS Arquitetos Associados. “O fato de esta metodologia envolver, num mesmo espaço e num prazo definido, os atores atuando frente a frente num clima ‘colaborativo’ gera um caldeirão de novas ideias e de soluções criativas que garantem o sucesso do projeto em estudo”, enfatiza Dilnei. 

Ao alcance de uma caminhada

As diretrizes estavam estabelecidas pelo escritório de arquitetura DPZ Latin America, um dos mentores do Novo Urbanismo, movimento que ganhava o mundo. A DPZ havia sido contratada pela Pedra Branca quatro anos antes para orientar o processo de transição da Cidade Universitária Pedra Branca para a que viria se chamar Cidade Sustentável Pedra Branca e, mais tarde, Cidade Criativa Pedra Branca. Ao lado da arquiteta e urbanista Sílvia Lenzi, uma das autoras do plano diretor, eles estabeleceram os critérios básicos a serem seguidos. “Vamos construir um bairro onde as pessoas possam morar, trabalhar, estudar e se divertir ao alcance de uma caminhada”, frisou Sílvia, um dos grandes nomes do urbanismo em Santa Catarina.

E cada escritório de arquitetura assumiu a criação de uma quadra do ‘novo centro de bairro’, porém, totalmente integrada com o todo.  Era como uma gincana. Essa é a analogia que faz Sílvia Lenzi ao referir-se à Charrette realizada. Cada mês um escritório apresentava seu projeto a todo o grupo e todos analisavam, discutiam, sugeriam alterações. “Era um laboratório urbano. Os arquitetos precisavam projetar o seu prédio, mas olhar o do ‘vizinho’, com olhar conjunto para garantir a qualidade do espaço público”, complementa Sílvia. Todos participavam da discussão com o objetivo de melhorar o todo, em um aprendizado constante. 


Os trabalhos seguiram a consultoria de especialistas da DPZ e, também, dos escritórios Jaime Lerner Arquitetura e Urbanismo e o dinamarquês Gehl Architects, considerando, ainda, estudos contratados a laboratórios da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “A DPZ trouxe questões como a volumetria nas quadras, os novos conceitos em relação aos pedestres, a tipologia das unidades, o uso e ocupação do solo, a cobertura das ruas e um padrão de unidade”, detalha Sílvia. 

Os pilares a serem fundamentados na Cidade Pedra Branca eram Densidade Equilibrada; Conectada e Sustentável;  Prioridade ao Pedestre; Uso misto, Espaços Públicos Atraentes e Seguros; e Criativa e Complexa. “No mundo moderno, o nível de conhecimento acumulado pelos humanos, em cada disciplina, é de uma dimensão tal que, individualmente, não temos condição de assimilar. Qualquer novo projeto que desejemos desenvolver, necessitará da atuação de diversos atores, cada um na sua especialidade. Se quisermos empregar a maneira tradicional de desenvolvimento de projetos  - cada vai para seu mundo estudar a solução da sua especialidade -  jamais chegaremos a um resultado satisfatório em tempo hábil”, reforça Dilnei Bittencourt. 


Colaboração contínua

O projeto urbano da Pedra Branca surpreendeu a todos desde o início, inclusive os arquitetos e urbanistas envolvidos. “Primeiro pela proposta para um bairro planejado, pautado em princípios de sustentabilidade e Novo Urbanismo. Depois, pela metodologia inovadora que trazia, envolvendo vários atores na discussão das ideias e construção das premissas, com escritórios estrangeiros, arquitetos locais, grandes nomes do urbanismo nacional, além dos empreendedores e de seu time. Foi um trabalho coletivo, colaborativo e de grande impacto no produto que produzimos a varias mãos”, considera o arquiteto e urbanista Giovani Bonetti, da Marchetti Bonetti.

Para Sílvia Lenzi, a prática da Charrette representou uma das suas melhores e mais ricas experiências como profissional. “Valério não mediu esforços para trazer os melhores consultores, que conversavam com a gente para desenvolvermos o projeto em conjunto. Trabalhavam conosco de igual para igual”, destaca a arquiteta, citando o empresário Valério Gomes, idealizador da Cidade Pedra Branca. “Era a visão técnica associada à visão do empresário querendo fazer o melhor”, acrescenta. 

Passados dez anos da realização daquela primeira Charrette, o grupo permanece integrado. “Ainda seguimos interagindo, contribuindo. E o que transparece é que cada um dos que fizeram parte deste desenvolvimento tem o sentimento de pertencimento ao bairro, comprometimento com o futuro dele. As lições que apreendemos e que nos foram oportunizadas nos abriram outros horizontes e aperfeiçoaram nossas práticas profissionais”, ressalta Giovani Bonetti. 


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