A Cidade que nasceu ao redor da sala de aula!

4 de setembro de 2026
Cidade Pedra BrancaAutor Cidade Pedra Branca
A Cidade que nasceu ao redor da sala de aula!

Gabriela da Silva passou o primeiro ano da faculdade de medicina fazendo todos os dias o mesmo caminho entre a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, até a Unisul, na Palhoça. Em 2019, a estudante se mudou para a Pedra Branca. A decisão parecia simples. Menos tempo no trânsito, alguns minutos a mais de sono, mais facilidade para estudar. Mas morar perto da universidade acabou impactando partes da vida que a estudante nem imaginava. 

“No momento em que me mudei para a Pedra Branca, toda a carga da faculdade ficou mais leve. Criamos uma comunidade de estudantes que moravam ali, eu não passava por aquilo sozinha. O bairro me propiciou isso”, conta.

O que Gabriela encontrou já fazia parte da história do bairro há mais de duas décadas. A presença de estudantes na Pedra Branca está na origem de seu surgimento. Quando a Unisul chegou à região, em 1996, a paisagem era muito diferente da que existe hoje. Havia terrenos vazios próximos à BR-101 e a primeira etapa do empreendimento, iniciada em 1999, seguia a lógica de um loteamento residencial convencional. A universidade funcionou como a principal âncora daquele começo. Estudos sobre a formação da Cidade Pedra Branca apontam que a instalação do campus foi justamente o que impulsionou o desenvolvimento do projeto. 

A partir de 2005, a história tomou outro rumo. Os responsáveis pelo empreendimento passaram a buscar referências no chamado Novo Urbanismo, movimento que propõe cidades mais compactas, com diferentes usos próximos uns dos outros e espaços que possam ser percorridos a pé ou de bicicleta. O que havia começado como um loteamento residencial passou a ser pensado como um lugar onde seria possível morar, trabalhar, estudar e circular sem precisar estar o tempo inteiro dentro de um carro. 

Hoje, a presença educacional vai além da Unisul. O bairro também abriga o Câmpus Palhoça Bilíngue do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), inaugurado em 2013. A unidade oferece cursos de qualificação, técnicos, graduação e pós-graduação, com atuação voltada à educação bilíngue em Libras e Língua Portuguesa e à área de multimídia. Na Unisul da Pedra Branca, são mais de 30 cursos, entre áreas como medicina, engenharia, psicologia, odontologia, arquitetura, tecnologia e negócios. É uma concentração que ajuda a explicar por que estudantes se tornaram parte tão visível da paisagem do bairro. 

Quem circula por ali percebe isso sem precisar de números. Está nos jalecos que aparecem pela manhã, nas mochilas jogadas nas cadeiras dos cafés, nos grupos que se encontram depois da aula e nos apartamentos compartilhados por quem veio de outra cidade para estudar. A vida universitária não fica restrita aos muros das instituições. Ela se espalha pelas ruas.

Foi assim para Gabriela. A proximidade fazia com que a faculdade ocupasse menos espaço na rotina, mesmo quando a carga de estudos continuava a mesma. Havia sempre alguém por perto que entendia uma prova difícil, a carga de uma madrugada estudando ou a ansiedade antes das avaliações. A vida acadêmica, que antes terminava quando Gabriela chegava em casa, passou a continuar um pouco além da porta da universidade.

Essa experiência encontra eco em pesquisas sobre moradia estudantil. Estudos na área apontam que estudantes que vivem próximos ao ambiente universitário podem ter melhores condições para acompanhar a rotina acadêmica do que aqueles que enfrentam longos deslocamentos diariamente. A proximidade não resolve, sozinha, as dificuldades de uma graduação, mas muda o tempo disponível e, muitas vezes, a forma de viver a universidade. No caso de Gabriela, mudou também o sentimento de estar sozinha.

Hoje, ela está no Rio de Janeiro, onde faz residência médica. A rotina ganhou outras responsabilidades e a cidade é outra, mas, quando fala do caminho que percorreu desde a graduação, volta à formação que começou na Pedra Branca. 

“Se eu estou aqui é por conta de toda a base que a universidade me deu. Se eu pudesse voltar atrás, não mudaria nada da minha trajetória”, diz.

A história dela ajuda a entender uma transformação que pode passar despercebida para quem conhece a Pedra Branca apenas como ela é hoje. Mais de duas décadas depois, a vocação educacional continua presente, mas já não cabe em uma única instituição. Ela aparece na arquitetura, no comércio, nos horários do bairro e, sobretudo, nas pessoas que chegam todos os anos para estudar e acabam encontrando ali um lugar para viver.

Gabriela chegou procurando apenas um endereço mais perto da faculdade. Encontrou uma comunidade. E talvez seja essa uma das histórias mais interessantes da Pedra Branca: um lugar que começou trazendo estudantes para perto da universidade e acabou construindo uma cidade em volta deles.

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