Durante boa parte do século XX, o planejamento urbano organizou as cidades por funções. Moradia em um bairro, trabalho em outro, comércio em uma terceira região. Esse modelo orientou o crescimento das grandes cidades brasileiras e aumentou progressivamente as distâncias percorridas no cotidiano.
Os números confirmam o desgaste. Uma pesquisa da CNI com trabalhadores brasileiros, realizada em 2023, revelou que 36% passam mais de uma hora por dia no deslocamento entre a casa e o trabalho. Para 51% desses trabalhadores, o tempo no trânsito impacta negativamente a produtividade. Mais expressivo ainda: 32% dos entrevistados já recusaram uma oferta de emprego devido a problemas de mobilidade. O deslocamento transformou-se em um fator que molda decisões de carreira e de vida.
Nas últimas décadas, o urbanismo passou a buscar modelos capazes de reduzir esses deslocamentos. Em 2016, o professor Carlos Moreno, da Universidade Sorbonne, formulou o conceito de cidade de 15 minutos: um território urbano onde moradia, trabalho, educação, saúde e lazer estão ao alcance de uma caminhada ou pedalada. A ideia, adotada oficialmente por Paris em 2020 como política pública da prefeita Anne Hidalgo, transformou-se em referência global. Mas seu princípio fundamental não é novo. É, na verdade, uma redescoberta. É a lógica do bairro tradicional, onde a padaria conhece o nome de quem entra, o trabalho fica a dez minutos a pé e a praça pertence a quem mora por perto. O que Moreno fez foi traduzir essa intuição em política urbana, num momento em que as metrópoles já haviam esquecido que isso era possível.
A Cidade Criativa Pedra Branca, em Palhoça, foi planejada com base nesses princípios antes mesmo da popularização do conceito de cidade de 15 minutos. Planejada nos anos 2000 a partir dos princípios do Novo Urbanismo, com consultoria de Jan Gehl e Jaime Lerner, o bairro foi concebido para que moradia, trabalho, estudo e convivência coexistissem ao alcance de uma caminhada. Hoje, com 12 mil moradores, 8 mil trabalhadores, 6 mil estudantes e 2.800 empresas instaladas, a Pedra Branca responde por cerca de 30% do PIB de Palhoça. Em 2024, mais de 420 novas empresas se instalaram no bairro. Os números de uma centralidade que funciona não são apenas urbanos. São econômicos.
O que a Pedra Branca demonstra, ao longo de mais de duas décadas de crescimento, é que centralidades se constroem com intenção, camada a camada: a escola que ampara as famílias, a empresa que se instala porque os talentos querem estar ali, o café que abre cedo porque há movimento pela manhã, a praça que, no fim da tarde, recebe quem saiu do escritório sem precisar pegar o carro.
Ao longo de mais de duas décadas, a Pedra Branca demonstrou que centralidades urbanas são construídas pela combinação de diversidade de usos, qualidade dos espaços públicos e permanência das pessoas. Quando trabalho, moradia, educação, serviços e lazer compartilham o mesmo território, reduzem-se os deslocamentos, fortalecem-se as relações locais e amplia-se a atratividade para novos moradores e empresas. É essa lógica que orienta os projetos desenvolvidos pela Hurbana em diferentes regiões.








