Crescer em comunidade: o que o escotismo ensina para a infância?

27 de outubro de 2026
Cidade Pedra BrancaAutor Cidade Pedra Branca
Crescer em comunidade: o que o escotismo ensina para a infância?

Aos sábados, quando boa parte do bairro está começando o fim de semana, o Grupo Escoteiro Pedra Branca já está reunido. Um grupo de crianças de seis, sete anos discute como amarrar um nó que nenhuma delas acerta de primeira. Ninguém corrige de cima para baixo. Um dos mais velhos, de quase o senta no chão com eles e tenta junto, errando também, antes de aprender. 

O grupo cresceu junto com o próprio bairro. Fundado em 2003, o Grupo Escoteiro Pedra Branca 23/SC foi a primeira entidade comunitária da Cidade Pedra Branca. A Associação de Moradores só surgiria no ano seguinte. Desde então, mais de 3 mil jovens passaram por suas atividades. Frederico Di Lullo, foi um deles. Ele e sua família conheceram o bairro em 2001 e se mudaram em 2004. Em 2003, fundaram o Grupo Escoteiro Pedra Branca. Hoje, aos 37 anos, Frederico é adulto voluntário e contribui com a formação de mais de 80 jovens. Seus pais, Eduardo e Mara, continuam de forma ativa no grupo, assim como sua irmã Ornella Di Lullo e sua afilhada Fiorella, que este ano completou a idade para participar do Grupo Escoteiro. “É muito bonito essa amplitude geracional“, diz. 

O escotismo funciona por faixas etárias bem marcadas. Lobinhos dos seis aos dez anos, escoteiros dos onze aos quatorze, sênior dos quinze aos dezessete, pioneiro dos dezoito aos vinte e dois. Cada ramo tem sua própria atividade, pensada para sua idade, e os encontros normalmente acontecem em grupos separados. Não existe uma regra escrita dizendo que os mais velhos cuidam dos mais novos. Acontece de forma natural, explica Fred, pela simples convivência de viver em comunidade.

Ele chama o escotismo de “educação complementar”: não substitui a família, a escola ou a formação religiosa de cada um, soma-se a elas. E o efeito aparece quando se menos imagina. É um jovem de dez, onze anos que começa a arrumar o próprio quarto sem que a mãe peça. É uma criança passa a entender que existe hora de brincar e hora de estudar. 

Frederico descreve o movimento como um funil invertido. Entram muitos lobinhos, atraídos pela idade em que os pais ainda decidem por eles, e o número vai diminuindo conforme a adolescência traz outros interesses. Mas quem passou, mesmo que só até os treze anos carrega a semente. “O exemplo clássico“, ele diz, “é o pai ou a mãe que foi escoteiro quando criança, depois a vida foi indo, e anos depois lembra dos aprendizados e traz o próprio filho para viver a mesma experiência”. 

Em vinte e três anos de atividade, passaram pelo grupo cerca de 1.800 famílias. Hoje, muitos dos participantes vivem no próprio bairro ou nas proximidades, embora o grupo esteja aberto a crianças e jovens de outras regiões. Para quem mora por ali, o lugar onde se aprende e convive é também o lugar onde se vive. “Se a gente faz uma ação de melhoria ou de conscientização, com certeza isso acaba sendo batido diretamente no seu local de convivência”, diz Frederico.

É assim que a ideia de comunidade deixa de ser uma palavra grande demais para uma criança. O movimento escoteiro trabalha com essa dimensão. Entre os princípios do seu programa educativo estão o protagonismo juvenil e o envolvimento comunitário. A proposta é que os jovens participem ativamente do próprio processo de desenvolvimento e aprendam a agir sobre a realidade ao redor.

O Grupo Escoteiro Pedra Branca funciona com trabalho voluntário. São pessoas que reservam parte da semana para preparar atividades, acompanhar crianças e jovens, organizar acampamentos, reuniões e ações comunitárias. O próprio GEPEB registra mais de 100 mil horas de voluntariado em sua trajetória. Para Frederico, esse é um dos motivos pelos quais continua ali. “Hoje eu tenho essa motivação de fazer isso pelos jovens porque o dia de amanhã esses jovens também vão poder enxergar que alguém fez isso por eles.”

E talvez seja por isso que a história do Grupo Escoteiro Pedra Branca se confunda tanto com a história do próprio bairro. Ao longo de mais de duas décadas, foram milhares de crianças e jovens passando pelo mesmo lugar, encontrando pessoas diferentes, aprendendo a dividir responsabilidades e levando alguma coisa dali para fora.

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